Abraça-me
Maria Helena Matarazzo 


Uma química delicada se produz entre duas pessoas
 que se sentem atraídas uma pela outra. 
O encontro se faz quase sempre pelo olhar. 
Segue-se a participação da boca,
 primeiro em sorrisos,  depois em palavras. 
Aí vai surgindo o desejo de tocar, de abraçar. 

Pesquisadores dizem que precisamos
 de seis abraços por dia para não nos sentirmos carentes. 
Por que seis? 
Talvez porque um é pouco, dois é bom,
 três é melhor ainda, quatro então nem se fala ... 

Nossos braços servem para abraçar, enlaçar. 
Só que cada abraço tem que ser sentido, vivido. 
Como diz o terapeuta paulistano José Ângelo Gaiarsa, 
você não toca no outro como se ele fosse uma cadeira. 
Senão você está coisificando o outro. 
Acontece que o outro é de carne e osso,
 parecido com você,  por isso, o gesto não pode ser impensado,
 mecânico, automatizado. 

As pessoas estão cansadas
 do gesto maquinal que não reflete nada. 
Quando eu toco o outro, que está além das fronteiras
 do meu próprio corpo, eu o sinto
 e sinto a mim mesma simultaneamente. 
Nesse sentido, podemos ficar horas sem fim
 nos tocando e nos sentindo. 
Mergulhando na sensação, percebendo o outro
 e me percebendo, tenho a sensação de estar sendo abraçada. 

A criança registra essa impressão na mente
 e vai pelo resto da vida tentando reconstituir, 
reencontrar essa sensação. 
Por isso o ser humano tem fome de abraço. 
Ele está tentando repetir o prazer 
que está associado a essa primeira experiência. 

Assim como aprendemos a falar
 porque algumas pessoas falam conosco 
e vamos falar da forma como elas falaram -,
 também aprendemos a tocar em grande parte 
dependendo da forma como fomos tocados. 
O aprendizado do amor começa aí. 
As sensações de mamar e amar ficam profundamente
 interligadas e até inseparáveis em nossa mente. 

Mais tarde, freqüentemente comer
 se torna uma forma de compensar a falta de amor. 
É por isso que, quando estamos carentes,
 atacamos a geladeira, bebemos mais cerveja, 
tomamos mais sorvete, comemos mais um chocolate. 

Tanto a fome de alimento com essa fome de contato
 normalmente se intensificam nos períodos de tensão. 
Entretanto, enquanto a fome de alimento
 podemos matar sozinhos com comida, 
cigarro ou álcool, a fome de contato dificilmente
 pode ser satisfeita sem outra pessoa. 
O que se resolve com gestos que nos aproximam, 
nos vinculam ao outro. 

Pode-se alisar, abraçar, tocar de forma apressada,
 impensada, dissociada. 
Ou pode-se tocar sensualizando, 
erotizando cada movimento. 
Cada gesto traduz um sentimento, 
uma emoção, que provoca uma reação. 
Se o gesto é indiferente, não manifesta nada, 
não tem energia nem intenção, 
você congela o outro e se congela.
 Se ele for macio, terno, doce, 
você derrete o outro e se derrete. 
Se ele for erótico, excitante, estimulante, apaixonado, 
você incandesce o outro e se incandesce também. 

Muitas vezes, quando se faz amor,
 carinho e carícia se misturam,
 se juntam, se fundem e confundem. 
Brincamos com o nosso corpo porque sabemos
 que fazer amor é " um alisar o outro e o outro alisar o um " . 
Nessa troca de carícias, o outro responde ao meu gesto
 e tende a fazer aquilo que meu gesto insinua. 
O que acontece é uma conversa dos dedos sobre a pele. 

O que se busca, quando se faz amor, 
é essa ampliação da consciência do contato. 
Na medida em que vamos aprendendo
 a ampliar o contato com outra pessoa, 
vamos ampliando e aprofundando nosso contato vivo
 e prazeroso com tudo o que existe. 

" Tato é a linguagem inicial da vida. " 

Respeite os Direitos Autorais
Mantenha sempre a Autoria.