AUSÊNCIA
Vinícius de Moraes


Eu deixarei que morra em mim o desejo
 de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa
 de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa
 como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe
 o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser
 tudo estaria terminado.



Quero só que surjas em mim
 como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma
 gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne
 como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás
 a tua face em outra face.



Teus dedos enlaçarão outros dedos
 e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
 porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face
 da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos
 da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa
 essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros
 nos pontos silenciosos.



Mas eu te possuirei como ninguém
 porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar,
 do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente,
 a tua voz serenizada.


 

 

 

Romantic Home/ Web designer Ana Amélia Donádio
Página reeditada em 16/07/2003.
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