LÁGRIMAS OCULTAS 
Florbela Espanca 


Se me ponho a cismar em outras eras 
Em que ri e cantei, em que era q'rida, 
Parece-me que foi noutras esferas, 
Parece-me que foi numa outra vida.
 
E a minha triste boca dolorida 
Que dantes tinha o rir das primaveras, 
Esbate as linhas graves e severas 
E cai num abandono de esquecida! 

E fico, pensativa, olhando o vago... 
Toma a brandura plácida dum lago 
O meu rosto de monja de marfim 

E as lágrimas que choro, branca e calma, 
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim! 



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Página reeditada em 16/07/2003.
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